Odisseu: A Jornada do Homem que Queria Voltar para Casa

Antes que Christopher Nolan leve o épico de Homero às telas em julho de 2026, vale a pena conhecer, ou redescobrir, a história que resistiu por três mil anos.

Existe uma cena que se repete todos os dias numa ilha imaginária chamada Ogígia. Um homem senta-se numa pedra à beira do mar. O horizonte não muda. O céu é perfeito, o vinho é doce, a mulher ao seu lado oferece a imortalidade. E ainda assim, ele chora.

Esse homem é Odisseu, rei de Ítaca, o guerreiro mais astuto da Guerra de Troia, o único sobrevivente de uma frota inteira. Ele chora não por falta de beleza, não por ausência de amor, não por privação de riqueza. Ele chora porque não está em casa.

Em julho de 2026, Christopher Nolan vai levar esse choro para as telas de cinema com um orçamento de 250 milhões de dólares, Matt Damon no papel do herói, Tom Holland como seu filho Telêmaco, Anne Hathaway como Penélope e Zendaya como a deusa Atena.

Mas antes de sentar na poltrona do cinema, vale a pena entender o que está por trás daquela lágrima na pedra. Porque a Odisseia, escrita por Homero há cerca de três mil anos, não se trata somente de uma aventura de monstros e deuses. É o retrato mais honesto já feito sobre o que significa ser humano: frágil, inteligente, teimoso, saudoso e obstinadamente vivo.

O Mundo Antes de Odisseu Entrar em Cena

A Odisseia começa com uma ausência. Odisseu (também conhecido como Ulisses) não aparece nas primeiras páginas, ele é uma ferida que dói em todo lugar onde não está.

Passaram-se dez anos desde a queda de Troia. A maioria dos guerreiros gregos voltou para casa, alguns em glória, outros para encontrar a morte nas mãos das próprias esposas. Odisseu, não. Ele simplesmente desapareceu no mar, levando seus homens consigo, e o silêncio que ficou em Ítaca pesa como chumbo.

No Olimpo, os deuses se reúnem. Zeus filosofa: os mortais culpam os deuses por seus sofrimentos, mas são as próprias escolhas humanas que constroem a maioria das desgraças. Atena, a deusa da sabedoria e da guerra estratégica, aproveita a abertura para defender o seu favorito. Odisseu está preso numa ilha, prisioneiro de uma ninfa apaixonada chamada Calipso, chorando de saudade todos os dias. Não merece esse destino. O decreto sai: ele vai voltar para casa.

Mas antes de o herói aparecer, Homero nos leva para Ítaca. E o que encontramos lá é perturbador.

O palácio de Odisseu foi tomado por 108 pretendentes, nobres jovens de Ítaca e das ilhas vizinhas que disputam a mão de Penélope, a esposa do rei ausente. Além de cortejadores inconvenientes, eles moram no palácio, comem os rebanhos, bebem os vinhos, assediam as escravas e tratam a casa de Odisseu como se fosse um clube privado para a sua própria diversão.

Penélope resiste com a única arma que tem, o tempo. Durante três anos, ela prometeu escolher um marido assim que terminasse de tecer a mortalha para o sogro Laertes. De noite, ela desfazia tudo o que havia tecido durante o dia. Era uma boa tática da resistência, até que as próprias servas a traíram e revelaram o estratagema aos pretendentes.

No meio de todo esse caos, existe um adolescente chamado Telêmaco. Filho de Odisseu, herdeiro de um trono que não consegue ocupar, testemunha impotente da degradação da própria casa. É por ele que a história começa. A Odisseia não abre com batalhas, abre com um filho que não conhece o pai e precisa encontrá-lo dentro de si mesmo antes de encontrá-lo no mar.

A deusa Atena desce disfarçada de um velho amigo e planta em Telêmaco a primeira semente de coragem: convoca a assembleia, denuncia os pretendentes, parte em busca de notícias do pai. A jornada de amadurecimento começa.

Parte I - A Telemaquia: O Filho que Precisou Crescer Sozinho

Telêmaco convoca a assembleia pública de Ítaca, a primeira em vinte anos. É um ato de coragem política para um jovem que cresceu sem pai, sem poder real e rodeado de homens que o desprezam. Ele se levanta, pega o cetro nas mãos e denuncia o que está acontecendo na sua casa.

A resposta dos pretendentes é desumana e cínica. Antínoo, o mais insolente deles, inverte a culpa: o problema não é o comportamento deles, mas a astúcia perigosa de Penélope. Como se a principal vítima fosse o algoz.

A assembleia falha. O povo de Ítaca assiste em silêncio, paralisado. Quando um Estado não tem rei legítimo, as instituições param de funcionar. Ítaca é, neste momento, um Estado falido.

Mas Telêmaco não desiste. De noite, com os pretendentes bêbados e adormecidos, ele embarca secretamente num navio preparado por Atena e parte para duas viagens que vão definir quem ele é.

Em Pilo, ele encontra Nestor, o mais velho e sábio dos guerreiros de Troia. O velho rei não tem notícias de Odisseu, mas tem algo mais valioso, sua memória. Ele conta a Telêmaco sobre a guerra, sobre os heróis que voltaram e os que morreram, sobre o peso da história que o jovem herda. Pela primeira vez, Telêmaco entende a extensão do homem cujo nome carrega.

Em Esparta, ele encontra Menelau e Helena, o casal que junto com Páris, iniciou toda a tragédia de troiana. O palácio é ofuscante em ouro e bronze, mas a riqueza esconde um luto inextinguível. Menelau chora por todos os que morreram, e nenhuma lágrima cai tanto quanto a que ele derrama por Odisseu.

Helena oferece aos hóspedes um vinho egípcio chamado nepentes, uma droga que apaga a dor momentaneamente. A cena revela o custo real da guerra de Troia, adultos poderosos que não conseguem falar sobre o passado sem precisar de entorpecentes.

A boa notícia chega pela boca de Menelau, ele viu Odisseu. Está vivo. Preso na ilha de Calipso, mas vivo.

Enquanto isso, em Ítaca, os pretendentes descobrem a fuga de Telêmaco e planejam assassiná-lo na volta. O filho do rei virou alvo antes de completar sua formação.

Parte II - O Homem no Meio do Mar

Hermes, mensageiro dos deuses, chega na ilha de Ogígia com o decreto de Zeus (Odisseu poderia retornar). Calipso, a ninfa que há sete anos ama Odisseu e lhe oferece a imortalidade, recebe a ordem com indignação legítima.

O monólogo de Calipso é um dos momentos mais surpreendentes do épico. Ela denuncia a hipocrisia divina: “quando os deuses se relacionam com mortais, tudo bem. Mas quando uma deusa ama um homem e o salva do naufrágio, mandam Hermes revogar o amor”. A crítica não tem resposta na obra, Homero a deixa suspensa no ar.

Odisseu aceita a liberdade, mas sem ingenuidade. Antes de embarcar, exige que Calipso jure pelo rio Estige que não está armando uma nova armadilha. O homem que viu de tudo desconfia até da boa notícia. É quase uma patologia de sobrevivente, e é exatamente o que o mantém vivo.

Ele constrói uma jangada com as próprias mãos. No décimo oitavo dia de navegação, Posêidon o vê. O deus do mar não esqueceu, afinal Odisseu cegou o filho dele, o Ciclope Polifemo. Com isso uma tempestade apocalíptica é imposta ao nosso protagonista.

Odisseu é arremessado ao mar. Perde a jangada, perde as roupas, perde tudo. Uma deusa menor chamada Ino surge das ondas em forma de gaivota e lhe oferece um véu mágico para flutuar. Ele hesita, pois prefere a madeira ao mágico, até que uma onda desfaz os últimos pedaços da jangada. Então se rende ao véu e à maré.

Dois dias depois, seminu, esfolado pelas pedras da costa, Odisseu arrasta o próprio corpo para a areia da terra dos Feácios. Beija o chão. Rasteja para dentro de um bosque e se enterra sob folhas secas. O conquistador de Troia dorme no chão como um animal, coberto de sal e sangue.

É o ponto zero. Homero faz questão de chegar aqui. Para o herói renascer, ele precisa antes ser completamente despojado.

Na terra dos Feácios, Odisseu acorda com um jogo de bola e os gritos de jovens. É a princesa Nausícaa com suas escravas. Ele emerge do mato com o aspecto de um leão faminto, e todas fogem, exceto ela.

O que se segue é uma das cenas mais sofisticadas da Odisseia. Odisseu precisa pedir ajuda, mas está nu e assustador. Tocar nos joelhos de uma jovem virgem para suplicar, como era o costume, seria um desastre. Então ele permanece à distância e fala. Com palavras cuidadosas, liricamente estruturadas, ele a compara a uma deusa, elogia a família dela, menciona uma palmeira que viu em Delos, constroí gradualmente uma imagem de si mesmo como homem civilizado e temente aos deuses. A inteligência substitui o gesto.

A estratégia funciona. Nausícaa oferece roupas, comida e direção. E seu conselho mais valioso: “no palácio, não suplique ao rei. Vá direto à rainha Arete. Se ela te aceitar, você vai para casa”.

No palácio do rei Alcínoo, Odisseu senta nas cinzas da lareira em sinal de súplica máxima. O herói é astuto e aqui ele está calculando seus movimentos. A lareira era o espaço sagrado de Héstia, deusa do lar. Sentar nela é colocar-se sob proteção divina, tornando impossível para o rei recusar o asilo sem cometer sacrilégio.

Alcínoo o recebe. Promete o navio. E pede a história.

Parte III - Os Monstros e o Hades: A Memória que Constrói o Herói

Durante os Cantos IX a XII de Homero no conto a Odisséia, Odisseu toma a voz. Ele se torna o narrador de si mesmo, o aedo da própria tragédia. Ele não conta aos Feácios sobre vitórias, faz alusões sobre desastres progressivos, cada um mais devastador que o anterior.

Os Cíconos. Saindo de Troia, os gregos saquearam uma cidade como soldados embriagados de guerra. Odisseu ordenou a retirada imediata, seus homens se recusaram, bebendo e festejando na praia. A demora custou seis vidas por navio. A tragédia começa quando a disciplina acaba.

Os Lotófagos. A terra mais perigosa não tem monstros. Os habitantes comem uma flor que provoca esquecimento total, do passado, da família, da pátria. Os batedores de Odisseu provam o lótus e imediatamente perdem o desejo de voltar para casa. Ele os arrasta à força para os navios. Neste épico, esquecer é morrer.

Polifemo, o Ciclope. É a história mais famosa da Odisseia, e sua construção é magistral. Odisseu entra na caverna de um gigante de um olho só por curiosidade e ganância, queria receber os “presentes de hospitalidade”. Fica preso. O monstro come dois homens por refeição, bloqueia a saída com uma pedra enorme. Matar o Ciclope com a espada é inútil: sem ele, a pedra não sai.

A solução é um milagre de engenharia intelectual. Odisseu afila uma estaca de oliveira, embriaga Polifemo com vinho puro e concentrado, e revela o seu “nome”: Ninguém. Quando crava a estaca no único olho do gigante e os outros Ciclopes chegam perguntando quem o feriu, Polifemo urra “Ninguém!”. Eles vão embora.

A fuga funciona. Mas então acontece o erro que vai custar tudo. No mar, já seguro, Odisseu não consegue se calar. Grita o próprio nome para que o Ciclope saiba quem o venceu. É uma necessidade quase patológica, o herói homérico não existe sem o seu nome. Mas ao revelar a identidade, ele dá a Posêidon o alvo exato para a maldição. O deus do mar ouve o filho ferido e jura impedir o retorno.

Éolo e os ventos. Durante nove dias de navegação perfeita, já avistando as costas de Ítaca, Odisseu finalmente cede ao sono. Seus homens, morrendo de inveja, abrem o odre de couro que Éolo lhe dera, acham que é ouro escondido. São todos os ventos do mundo. Em segundos, a tempestade os devora e a viagem recomeça do zero.

Os Lestrigões. Gigantes canibais que destroem onze dos doze navios. A paranoia de Odisseu, que ancorou o seu navio do lado de fora do porto, diferente dos outros, é o único motivo pelo qual algum sobrevive.

Circe, a feiticeira. Na ilha de Eana, uma deusa transforma os homens em porcos. Odisseu é protegido por um amuleto dado por Hermes e subjuga Circe à sua própria mesa. Ela reverte o feitiço. E então Odisseu passa um ano inteiro na ilha, banqueteando-se todos os dias, esquecendo Ítaca novamente. São seus próprios companheiros que o chamam à razão.

Mas antes de partir, Circe impõe uma condição terrível, ele precisa descer ao mundo dos mortos.

O Hades. A Nekuia, o ritual de evocação dos mortos, é o coração filosófico da Odisseia. Odisseu desce até o limite do mundo, derrama sangue de animais e os espectros vêm beber.

Tirésias, o único morto que manteve a mente, profetiza: “Odisseu vai voltar, mas vai perder todos os seus homens antes disso”. E há um aviso específico: “na ilha de Hélio, não toque nos bois sagrados”.

Então vem o momento mais dilacerante do poema. Odisseu vê a sombra da própria mãe, ela morreu durante a sua ausência. Quando a pergunta sobre o que a matou, ela responde: “a saudade de ti, filho”. O amor que eu sentia pela tua bondade que me roubou a vida.

Três vezes ele tenta abraçá-la. Três vezes ela se dissolve como fumaça. A morte é a privação definitiva do toque.

Outros heróis aparecem. Agamêmnon, assassinado pela própria esposa, adverte Odisseu a nunca confiar em mulher alguma. Aquiles, o mais glorioso de todos os guerreiros, diz a frase que destrói a lógica da Ilíada: “preferia ser um servo pobre vivo do que o rei de todos os mortos. A glória póstuma não conforta ninguém no Hades”.

As Sereias, Cila e Caribde. De volta ao mundo dos vivos, Odisseu escuta o canto das Sereias amarrado ao mastro, elas não prometem amor nem riqueza, mas conhecimento absoluto, a tentação definitiva para um homem movido pela inteligência. Ele ouve tudo e sobrevive porque as cordas o impedem de agir.

Cila e Caribde são a armadilha sem saída, de um lado, um redemoinho que engole navios inteiros, do outro, um monstro de seis cabeças que pesca seis marinheiros por vez. Odisseu escolhe o mal menor. Não conta aos homens o que vai acontecer, eles travariam de medo. Seis dos seus melhores amigos são içados vivos para a gruta do monstro. Ele ouve seus nomes sendo gritados e não pode fazer nada.

De tudo que sofri”, confessa Odisseu, “aquela foi a visão que mais me despedaçou o coração.”

Os bois de Hélio. Presos na ilha por um mês de ventos contrários, as provisões esgotadas, os homens finalmente cedem. Um motim liderado por Euríloco: “se vamos morrer de qualquer jeito, melhor morrer de espada do que de fome”. Eles sacrificam os bois sagrados enquanto Odisseu dorme. A punição é imediata, Zeus destrói o navio com um raio. Todos morrem. Só Odisseu sobra, agarrado a um pedaço de mastro, à deriva para Ogígia, e o ciclo recomeça.

Parte IV - O Regresso: Um Rei Disfarçado na Própria Casa

Os Feácios levam Odisseu adormecido até as praias de Ítaca e depositam o corpo na areia com os tesouros. Ele acorda sem reconhecer a própria pátria, Atena cobriu tudo com névoa. Só depois que a deusa se revela e desfaz a bruma é que ele beija a terra ancestral.

Mas não pode entrar na cidade como rei. Atena o transforma num mendigo decrépito, pele envelhecida, ombros curvados, olhos apagados, e dá as ordens do plano de guerra: infiltração, reconhecimento, eliminação.

A primeira parada é a cabana do porqueiro Eumeu. O escravo que ganha algumas páginas dedicas por Homero, na verdade, era príncipe de uma ilha distante antes de ser sequestrado na infância e vendido como escravo em Ítaca. Mas é o personagem mais íntegro do poema. Ele acolhe o mendigo desconhecido com a hospitalidade que os pretendentes da nobreza jamais demonstraram, citando a lei de Zeus para os forasteiros e sacrificando os melhores leitões que tem.

Enquanto isso, Telêmaco escapa da emboscada no mar e recebe instruções divinas para ir direto à cabana de Eumeu. O reencontro de pai e filho acontece ali, entre porcos e palha. Atena restaura momentaneamente a aparência real de Odisseu, e Telêmaco recua assustado achando que é um deus. A resposta do pai é uma das mais belas do poema: “Não sou um deus. Sou teu pai. Por quem suportaste tantas tristezas.”

Os dois choram copiosamente. Homero os compara ao grito de águias e abutres que tiveram o ninho roubado. Não é alívio, é a dor de vinte anos de tempo roubado, transformada em som.

O plano de guerra é traçado ali mesmo, entre lágrimas, Odisseu volta ao palácio como mendigo, Telêmaco remove todas as armas do salão, quando o momento certo chegar, pai e filho lutam juntos. Mais ninguém precisa saber, nem o próprio Eumeu, por ora.

Parte V - O Mendigo no Palácio: A Guerra que Começa com Humilhação

A descida de Odisseu ao palácio é um exercício brutal de autocontrole. No caminho, o cabreiro traidor Melântio o chuta. No pátio, o líder dos pretendentes, Antínoo, lhe arremessa um tamborete na cabeça. O homem que destruiu Troia permanece inabalável como um pilar de pedra, contendo a fúria no peito, tecendo apenas a morte futura na mente.

Mas o caminho ao palácio guarda o momento mais silencioso e devastador da Odisseia.

No monte de estrume à entrada do portão, entre carrapatos e sujeira, jaz um velho cão. Argos. Odisseu o criou antes de partir para Troia, era o mais veloz e certeiro caçador de toda a ilha. Vinte anos depois, esquecido pelas escravas, apodrecendo no esterco, o cão levanta a cabeça ao ouvir os passos do mestre. Abana a cauda com os últimos músculos que lhe restam.

Odisseu vira o rosto para não ser visto chorando. Pergunta casualmente ao porqueiro de quem é aquele cão. Ouve a resposta. Entra no palácio.

Argos deita a cabeça e fecha os olhos para sempre. Esperou vinte anos. Viu o dono uma última vez. Estava feito.

Dentro do salão, a degradação é total. Os pretendentes bebem, comem e gozam. Um mendigo chamado Iro enfrenta o forasteiro por monopólio da mendicância, e descobre, tarde demais, que havia aceitado um duelo com o maior guerreiro de Troia. Odisseu o derruba com um único soco, contido só para não matar com força excessiva.

Penélope desce ao salão num desses dias. Os homens ficam sem fôlego, a deusa Atena acabou de ungir o rosto dela com a beleza de Afrodite. Mas Penélope não desce para seduzir, desce para extorquir. Ela lembra que um noivo digno traz presentes, não devora a herança da noiva. Os pretendentes mandam buscar joias às pressas. Odisseu, do canto, sorri. Ele reconhece a própria mente operando no corpo da esposa.

À noite, Penélope manda chamar o mendigo para um encontro privado. Ela quer notícias do marido. O que se segue é um dos diálogos mais tensos da literatura, marido e mulher sentados à beira do fogo, separados por uma máscara e vinte anos de dor.

Odisseu inventa uma identidade cretense. Descreve ter hospedado Odisseu há muitos anos. Penélope o testa imediatamente: “como ele era”? “O que vestia”? Ele descreve com precisão o manto e a fíbula de ouro que ela mesma costurou no marido no dia em que ele partiu. Penélope chora, e Odisseu mantém os olhos secos como ferro. Chorar por Argos foi humano, chorar agora seria fatal.

A velha ama Euricleia lava os pés do mendigo. Seus dedos encontram a cicatriz de um javali, vinte anos atrás, no Monte Parnaso. Ela solta o pé. A bacia cai. Odisseu agarra sua garganta na escuridão. Cale-se, ou morre. Euricleia, tremendo, jura. O segredo está guardado.

Penélope, alheia à revelação, conta ao mendigo a decisão que vai mudar tudo, ela vai propor o desafio do arco. Quem conseguir encordoar o arco de Odisseu e disparar uma flecha através de doze machados alinhados receberá a sua mão.

O mendigo levanta o rosto. “Não adie esse dia,” ele diz. “Odisseu chegará antes que qualquer um deles toque na corda.”

Parte VI - O Julgamento: Sangue, Arco e Oliveira

Penélope desce ao depósito de tesouros, tira o arco do estojo e chora. É a despedida do marido antigo para abrir espaço ao marido novo. Depois sobe, erguendo-se com a dignidade que vinte anos de resistência constroem, e anuncia o desafio.

Os pretendentes tentam, um por um, encordoar o arco. Aquece-se no fogo, esfrega-se com gordura. Ninguém consegue. A madeira não cede.

Odisseu pede para tentar. Os pretendentes explodem de raiva, que audácia de um vagabundo. Penélope defende o direito do hóspede. Telêmaco, pela primeira vez, exerce a autoridade plena da casa: manda a mãe voltar para os aposentos. O arco é assunto de homens, e ele é o senhor daqui. Penélope obedece, espantada com a maturidade repentina do filho.

Eumeu carrega o arco até o mendigo. Os pretendentes ameaçam o porqueiro. Telêmaco grita mais alto. A transferência acontece.

Odisseu pega a arma nas mãos com uma lentidão cirúrgica, inspecionando cada centímetro da madeira. Os pretendentes riem nervosamente, o velho parece conhecedor de arcos roubados. Ele ignora. Encontra a corda, encaixa, e a estica com um movimento que Homero compara a um músico afinando a lira. Solta a corda e ela vibra, um único som nítido, limpo, cortante como a voz de uma andorinha.

O sangue foge dos rostos dos cento e oito homens.

Zeus lança um trovão do céu sem nuvens.

Odisseu pega a flecha que estava sobre a mesa, encaixa, mira através dos doze machados e dispara. A flecha passa por todos os buracos sem tocar as bordas.

O rei se vira para o filho. “Não te envergonhei.”

Telêmaco afixa a espada à cintura e vai se posicionar ao lado do pai. O salão está trancado, portas seladas, portão amarrado, armas escondidas. Não há saída.

Odisseu salta para o umbral de pedra, retira os farrapos e ergue o arco.

O massacre que se segue é brutal, meticuloso e necessário dentro da lógica do mundo homérico. Antínoo morre primeiro, uma flecha na garganta enquanto levava a taça aos lábios. Eurímaco tenta negociar. Odisseu recusa, nem que lhes dessem tudo o que possuem, a mão não para. Há uma lei que foi violada aqui, mais antiga que qualquer lei humana, e ela exige retribuição.

Pai e filho, com o porqueiro e o boieiro ao lado, enfrentam mais de cem homens em campo fechado. Atena desvia as lanças dos inimigos e guia as de Odisseu. O salão se transforma num abatedouro. Quando termina, os corpos estão empilhados como peixes tirados do mar numa rede, a imagem que Homero escolhe, fria e precisa como um pescador que olha para a própria colheita.

Dois homens são poupados: o aedo Fêmio, que cantava para os pretendentes por coerção, e o arauto Medonte, que cuidou de Telêmaco na infância. A arte e a lealdade têm valor até no dia do julgamento.

O salão é purificado com enxofre e fogo. O miasma, a poluição espiritual do homicídio em massa, precisa ser apagado antes que a casa possa ser habitada de novo.

Então Odisseu manda chamar Penélope.

O Reencontro: O Teste da Cama

A velha ama sobe correndo. A rainha desce devagar.

O homem à beira da lareira é impressionante, limpo, alto, com a graça que Atena derramou sobre ele. Mas Penélope não corre. Senta-se do outro lado do fogo e olha.

Telêmaco, que acabou de participar de um massacre, não suporta a frieza da mãe. “Que mulher és tu! Como podes sentar tão longe do marido que voltou após vinte anos?”

Penélope responde com uma serenidade que vem de muito sofrimento: “Se ele é verdadeiramente Odisseu, nós nos reconheceremos de uma forma que o resto do mundo não pode compreender.

Odisseu sorri. Aquele é exatamente o tipo de resposta que ele daria.

Ele pede à ama que prepare sua cama em outro cômodo. Penélope o ouve e dá a ordem aparente: “Euricleia, tira a cama de dentro do quarto nupcial e coloca lá fora para o hóspede.”

Odisseu perde a compostura de guerra pela primeira vez. Levanta-se. A raiva é genuína, incontrolável. Porque aquela cama não pode ser movida. Ele mesmo a construiu em torno de um tronco de oliveira que crescia dentro do pátio, cortou os ramos, poliu a madeira viva, ergueu as paredes do quarto ao redor da raiz. A cama não é um móvel. É a árvore. É a terra de Ítaca. Se alguém a moveu, é porque destruiu o quarto inteiro.

Ao ouvir o segredo que só eles dois e uma escrava morta conheciam, os joelhos de Penélope cedem.

Ela corre. Atira os braços ao pescoço do marido. Chora.

Não te zangues comigo. Eu sabia que os deuses eram invejosos da nossa felicidade. O meu coração tremia de medo que alguém astuto me enganasse. Mas agora eu sei.”

Homero descreve o abraço com uma imagem que inverte tudo o que esperaríamos, eles se agarram como náufragos que finalmente tocam a areia depois de nadar dias no mar revolto. Os dois. Não só ele. Ela também sobreviveu a um naufrágio, apenas em terra seca, durante vinte anos, sozinha no palácio tomado.

Atena, por compaixão, detém o nascer do sol. A noite se estende para dar ao casal mais tempo antes que o mundo volte.

O Fim do Ciclo

A Odisseia não termina com o abraço. Homero insiste em mais.

As almas dos pretendentes derrotados descem ao Hades, e Agamêmnon, lá embaixo, fica sabendo o que aconteceu. Ele exclama: “feliz de ti, Odisseu, que tiveste uma esposa fiel. A glória de Penélope não morrerá”. Com isso, Homero resolve o trauma que abriu o livro, o espectro da mulher traidora, da casa invadida, do herói que voltou para a morte. Odisseu é o contra-exemplo perfeito de Agamêmnon.

Em Ítaca, Odisseu visita o velho pai Laertes, que vive como escravo da própria terra, consumido pela saudade. O herói testa o pai com uma mentira, velha compulsão, antes de se revelar. O velho desmaia de emoção. A família está reunida por três gerações: Laertes, Odisseu, Telêmaco.

Mas a crise política chegou. Os parentes dos pretendentes mortos querem vingança de sangue. Atacam a fazenda. A batalha começa. Laertes, renovado pelos deuses, lança uma lança e mata o pai de Antínoo. Odisseu e Telêmaco avançam.

É Zeus quem para tudo. Atena clama o cessar-fogo com um grito que faz as armas caírem. O deus do Olimpo decreta: “o massacre foi justo, os culpados foram punidos, agora se faz a paz”. As famílias são obrigadas a esquecer.

O épico termina com um pacto, frágil, forçado pelos deuses, mas necessário.

Quando Christopher Nolan mostrar Matt Damon construindo uma jangada numa ilha paradisíaca, chorando de saudade enquanto uma deusa o ama, lembre-se do que está por trás daquela cena, um poema que sobreviveu à civilizações inteiras para dizer que a maior façanha humana não é conquistar cidades, é saber para onde quer voltar.